
Depois de anos sofrendo, Denise finalmente conseguiu um diagnóstico. Há 6 anos, segue uma dieta sem glúten e nos mostra que lidar com múltiplas alergias alimentares não é nada fácil. Não é apenas ser a sua própria enfermeira/nutricionista 24 horas por dia afinal é necessário cuidado e atenção a tudo o que ela ingere mas, também, ser sua própria psicóloga e defensora dos seus próprios direitos, devido a falta de compreensão e educação de pessoas que desconhecem o perigo de sua condição.
Vítima de assédio moral ela nos faz lembrar que atormentar alguém por causa de uma alergia alimentar não é diferente de qualquer outra forma de assédio/bullying. Seu impacto em todas as suas formas é profundo, podendo causar sofrimento emocional, baixo rendimento e diminuição da produtividade; danos físicos em potencial ou mesmo a morte por causa de lesões, suicídio, e muitas vezes a somatização de estresses.
Esse impacto, pode ser muito mais profundo em crianças e adolescentes vítimas de assédio moral na escola por seguirem uma dieta alimentar restritiva. Para uma criança, gerenciar por si só uma dieta restritiva pode gerar insegurança e, adicionar à isso, a carga de um assédio moral pode fazê-la abondonar a dieta, ter várias recaídas no glúten (causando danos ainda maiores a saúde), não comer na escola e com isso ter baixos rendimentos devido a falta de concentração, fingir estar doente para faltar escola ou até mesmo abandonar os estudos.
Infelizmente muitas pessoas ainda não entendem que as alergias alimentares são graves e podem ser fatais.
Nem todos podem tirar um curso superior. Mas todos podem ter respeito, alta escala de valores e as qualidades de espirito que são a verdadeira riqueza de qualquer pessoa. (Alfred Montapert)
Obrigada Denise por contar a tua história!
Quando você descobriu que era Celíaca e como isso ocorreu?
R: Descobri a DC em 2006, aos 46 anos (hoje tenho quase 52), ou seja, faço a dieta há 6 anos. Passei a vida toda muito mal, estive à morte quando bebê, quando os médicos disseram à minha mãe que eu ia mesmo morrer, pois não comia nada, meu corpo nada absorvia e eu estava extremamente magra. Sobrevivi tomando chá e leite sem lactose, mas sempre fui uma criança doente, com a barriga inchada, de baixo peso, com muitas alergias alimentares.
Por volta dos 7 anos de vida, os médicos pediram examens de alergia, pois eu tinha também a Dermatite Herpetiforme, meu corpo se enchia de bolhas com água que estouravam, coçavam, doíam, era um transtorno imenso. O laudo final indicou não ser normal, pois eu tinha alergia a todos os 200 alimentos testados.
Na adolescência houve uma melhora, mas os sintomas voltaram depois dos 30 anos, vindo a piorar depois dos 40.
O que mudou depois que eliminaste o glúten da tua dieta?
R: Depois da dieta sem glúten, melhorei da diarréia crônica que me levava a evacuar inúmeras vezes por dia, o que me deixava fraca e desidratada sempre. Mas os sintomas volta e meia retornam, pois tenho intestino irritável e duodenite crônica. Tenho intolerância à lactose e a outros alimentos também, além de glúten. Tenho alta sensibilidade ao glúten, de contato inclusive (beijos no rosto me deixam empolada no lugar do beijo por vários dias). E volta e meia ainda tenho crises celíacas, por contaminações cruzadas.
Quais foram as dificuldades que encontraste e continuas encontrando?
R: Sobre as dificuldades, muitas estão listadas acima. Mas creio que a maior delas seja no ambiente de trabalho, onde as chefias e colegas não conhecem a doença. Então, baseiam-se no que é divulgado na mídia, quando médicos e nutricionistas dizem que basta fazer a dieta sem glúten que ficamos bem. Isso não ocorreu comigo, pois continuei mal, com muitas internações em hospitais. A diarréia sumira, mas o problema foi acostumar minha casa, amigos e familiares para a realidade da DC, ou seja, tudo meu teria que ser separado em casa e na geladeira. Além do que, o estresse do trabalho e o volume do mesmo acabam me afetando, já que tenho crises periódicas. Com prazos a cumprir, a coisa complica. Assim como assumir certos trabalhos onde eu não possa usar o banheiro com frequência e por mais tempo.
Havia um falatório de que eu fazia corpo mole, mas os inúmeros atestados, laudos e comprovantes de internação o entregues na empresa, diziam o contrário. Deixei de pegar inúmeros trabalhos por não ter condições para isso, principalmente aqueles que envolviam filmagens e viagens.
Outra dificuldade diz respeito à alimentação, dado que no Brasil há poucos lugares que vendem alimentos sem glúten – ao menos no Rio e em SP há essa carência. Os produtos são fracos, sem teor alimenticio significativo, caros e raros de serem encontrados.
Assédio moral no ambiente de trabalho é crime. Você buscou seus direitos?
R: Sim, Leila, busquei e ganhei a causa. Ela ainda está correndo na justiça, aquela parte final dos recursos, mas a causa está ganha.
Porque você acha que é tão difícil para as pessoas entenderem quão sério é uma alergia alimentar?
R: Eu acho que é por ignorância mesmo, desconhecimento, num país onde o nível cultural e educacional é tão baixo.
Diante disso tudo, quais as lições que tens aprendido?
R: Uma delas, e talvez a principal, é não ceder às pressões para comer fora de casa, em restaurantes comuns. Outra é lutar para ser ouvida: não posso comer tais coisas, não posso aceitar que minha comida seja feita com utensílios contaminados por gluten e por aí vai. E não me deixar levar por pessoas insensíveis que riem da minha condição ou que dizem, sem o menor tato, que a DC é uma doença horrível. Já ouvi até de uma médica, ironizando, rindo-se, inclusive, a frase: ‘nossa, que azar que você teve em ter uma doença como essa’. Por aí, dá pra você entender porque eu acho que a ignorância, no Brasil, atrapalha em muito a vida de qualquer indivíduo, que dirá de quem tem restrições.
No ambiente de trabalho, é fazer ver às pessoas que não posso assumir certas funções, mas que, apesar disso, os celíacos amam trabalhar e produzir.
Que conselho você daria para alguem que passa por situações parecidas com a sua no trabalho?
R: Eu diria para não se calar, para lutar, mesmo que esteja se sentindo só, mesmo quando ninguém a volta pareça entender a situação. Eu, antes de entrar com processo, dei queixa ao Ministério Público. Foi o primeiro passo. Após a demissão, entrei logo com o processo.
Advogados trabalhistas, até onde sei, só cobram ao final do processo, se houver ganho de causa para o cliente. Portanto, é um serviço acessível a todos. Mas é importante buscar um advogado que conheça a doença. Os meus não conheciam, mas passaram a estudá-la profundamente, junte provas, tudo o que puder, sobre a discriminação, principalmente testemunhas, isso é muito importante. Junte laudos médicos, atestados e exames relativos a doença e entregue no setor médico da empresa. Faça a empresa ter ciência de sua situação. Se tiver tido internações em hospitais por mal estar relativo a DC, peça relatórios dos hospitais, tire cópias e entregue ao setor médico. E guarde cópia de tudo isso com você, numa pasta a parte.
Esclareça seus colegas sobre os sintomas e dificuldades que sente. Há sempre aqueles que entendem e tentam ajudar. E, se a chefia for bacana, converse sempre com ela a respeito, se houver canal para isso.